Salesianas de São Filippo

Effatha: a relação do homem com Deus fundamentada na escuta

Effatha: a relação do homem com Deus fundamentada na escuta

Em um mundo marcado pela rapidez das informações e pela superficialidade das relações, a Sagrada Escritura apresenta uma compreensão profundamente diferente da comunicação. Mais do que simples ações humanas, falar, ouvir e ver constituem uma verdadeira dinâmica espiritual de encontro entre Deus e o homem. O Cardeal Gianfranco Ravasi chama essa relação de “Trilogia da Comunicação”, indicando que esses três verbos formam a base da experiência bíblica da revelação e da fé.

Na Bíblia, o “falar” possui uma força criadora. O verbo hebraico דבר e o grego λεγω expressam muito mais do que pronunciar palavras: revelam uma ação que gera vida. Já no primeiro capítulo do Gênesis, Deus cria o universo por meio da Palavra: “Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz” (Gn 1,3). Durante os seis dias da criação, tudo surge pela força da Palavra divina.

Criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), o homem também recebe a capacidade de falar. Por isso, Adão é capaz de dar nome às criaturas (Gn 2,19). A palavra torna-se, assim, expressão da inteligência, da interioridade e da transcendência humana. Segundo Ravasi, é precisamente a capacidade de falar que manifesta a singularidade do homem, pois através das palavras ele expressa pensamentos profundos e espirituais.

Entretanto, na experiência bíblica, o “ouvir” ocupa lugar ainda mais central. O verbo hebraico שמע e o grego ακούω não indicam apenas uma escuta acústica, mas uma atitude de abertura e acolhimento diante de Deus. O grande mandamento de Israel resume essa espiritualidade: “Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh” (Dt 6,4).

Essa passagem constitui o coração da fé judaica e revela que a relação com Deus nasce da escuta. A tradição hebraica destaca essa centralidade de modo impressionante: na Bíblia massorética, a última letra de “Shema” (“ouve”) e a última letra de “Ehad” (“único”) formam juntas a palavra ‘ed, que significa “testemunha”. Assim, o testemunho do povo de Israel fundamenta-se na escuta da Palavra divina.

A Sagrada Escritura mostra ainda que Deus não se revela principalmente através de imagens, mas da voz: “Ouvíeis o som das palavras, mas nenhuma forma distinguistes: nada além de uma voz!” (Dt 4,12). A Palavra permanece, orienta e conduz o homem, enquanto a experiência puramente visual pode ser passageira. Por isso, os autores bíblicos compreendem a escuta como caminho de comunhão e aliança.

É significativo perceber que, antes da queda, Deus nunca ordena ao homem que escute. No estado original, o coração humano encontrava-se plenamente aberto à voz divina. Somente após o pecado surge o imperativo da escuta, porque o homem passa a fechar-se para Deus. A ruptura do pecado não destrói apenas a relação com o Criador, mas também a capacidade interior de ouvir verdadeiramente.

Mesmo diante desse fechamento, Deus continua atento ao sofrimento humano. Ao manifestar-se a Moisés, declara: “Eu vi a miséria do meu povo […] ouvi seu clamor” (Ex 3,7). Deus vê e ouve a dor do homem, aproximando-se dele para restaurar a Aliança. A Torá torna-se, então, o caminho pelo qual Israel entra novamente em relação com Deus através da escuta obediente da Palavra.

No Novo Testamento, essa dinâmica alcança sua plenitude em Jesus Cristo. O Evangelho segundo Evangelho de Marcos desenvolve a relação com Deus não apenas pela escuta da Lei, mas pela relação pessoal com Cristo.

Também o verbo “ver” possui profundidade especial na linguagem bíblica. Tanto no hebraico quanto no grego existem diversos termos para indicar diferentes níveis de visão. Alguns expressam apenas uma percepção superficial; outros indicam contemplação profunda. Verbos como εμβλέπω, no grego, e נבת, no hebraico, descrevem um olhar atento, penetrante, capaz de atingir a essência das coisas.

Assim, o verdadeiro “ver” bíblico não se limita à aparência exterior. Trata-se de uma contemplação que ultrapassa a superficialidade e alcança o sentido profundo da realidade. O olhar de fé é aquele que aprende a enxergar com profundidade espiritual.

Essa dinâmica de abertura encontra sua expressão mais bela no episódio do Effatha, narrado por Marcos (Mc 7,34). Diante de um surdo-mudo, Jesus pronuncia uma palavra em aramaico: “Effatha”, isto é, “Abre-te!”. O evangelista conserva o termo original e logo o traduz para seus leitores, muitos dos quais já não compreendiam a língua aramaica.

A preservação dessa palavra possui grande importância. Ela revela a identidade histórica e cultural de Jesus, judeu da Galileia, e ao mesmo tempo afasta qualquer interpretação mágica do milagre. A ação de Cristo não é um encantamento, mas um encontro pessoal e transformador.

Os exegetas destacam que a ordem “Abre-te” não se dirige apenas aos órgãos físicos do homem, mas à própria pessoa. Jesus abre o homem inteiro: seus ouvidos, sua palavra, seu coração e sua capacidade de entrar em relação. O verdadeiro milagre é a restauração da comunhão.

O Effatha torna-se, assim, símbolo da experiência cristã. O homem fechado pelo pecado é novamente aberto pela Palavra viva de Cristo. Deus fala, o homem aprende a ouvir, e dessa escuta nasce um novo modo de ver a realidade.

Em meio a uma cultura marcada pelo excesso de ruídos e pela dificuldade de escutar profundamente, a Bíblia recorda que somente a Palavra de Deus é capaz de abrir verdadeiramente o coração humano. Quem aprende a ouvir Deus passa também a enxergar a vida com um olhar novo, mais profundo e mais verdadeiro.

Irmã Geovanna Moura, 

Salesiana dos Sagrados Corações

A escuta que conduz ao encontro com Cristo 

O Evangelho de Marcos apresenta uma profunda unidade teológica construída em torno de duas grandes linhas narrativas: a revelação da identidade de Jesus e a formação do discipulado. Mais do que uma simples coleção de relatos sobre Cristo, Marcos organiza cuidadosamente as tradições recebidas para conduzir o leitor a um caminho de escuta, fé e seguimento.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, reconhece-se a fidelidade de Marcos às memórias transmitidas pelos discípulos. O testemunho de Papias de Hierápolis, preservado por Eusébio de Cesareia, afirma que Marcos escreveu tudo aquilo que recordava da pregação apostólica, sem deixar perder nada do que havia ouvido. Diversos estudiosos observam que o evangelista reuniu tradições já existentes e as integrou em uma narrativa coerente e profundamente teológica.

O Evangelho inicia-se com uma afirmação decisiva: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Essa abertura já revela a intenção central de Marcos: conduzir o leitor ao reconhecimento da identidade de Jesus. Ao longo da narrativa, o evangelista estabelece uma profunda união entre a ação de Deus e a ação de Cristo. O “Evangelho de Jesus” é também o “Evangelho de Deus” (Mc 1,14), indicando que, para Marcos, não existe separação entre o agir do Pai e o agir do Filho.

Essa unidade aparece de modo particularmente forte no episódio do geraseno possesso (Mc 5,1-20). Jesus ordena ao homem curado que anuncie “tudo o que o Senhor fez por ti”, mas o narrador afirma que ele começou a proclamar “o que Jesus fizera por ele”. Marcos conduz o leitor a perceber que as obras de Jesus revelam a própria ação de Deus.

A mesma relação aparece nas manifestações da voz divina no Batismo e na Transfiguração: “Tu és o meu Filho amado” (Mc 1,11) e “Este é o meu Filho amado; ouvi-o” (Mc 9,7). A voz que outrora se manifestava ao povo de Israel no Antigo Testamento agora aponta para Cristo e ordena que os homens o escutem. O Deus que falava na Antiga Aliança revela-se plenamente no Filho amado.

Por isso, a escuta ocupa lugar central no Evangelho de Marcos. O evangelista é o único entre os sinóticos a citar explicitamente o “Shemá Israel”: “Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Mc 12,29). A fé nasce da escuta, e o discipulado consiste precisamente em abrir-se à voz de Cristo.

Desde o início do Evangelho, Marcos conduz o leitor por esse caminho. O anúncio da voz que clama no deserto e a preparação do caminho do Senhor convidam cada pessoa a envolver-se numa experiência concreta de seguimento. O leitor não permanece apenas como observador da narrativa; ele é chamado a decidir entre abrir-se ou fechar-se à voz de Deus.

A questão sobre a identidade de Jesus percorre toda a obra: “Quem é este?” (Mc 4,41). Enquanto os demônios reconhecem imediatamente “o Santo de Deus” (Mc 1,24), os discípulos realizam um caminho lento de compreensão. Esse percurso atinge seu ponto culminante em Cesareia de Filipe, quando Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,29). Pedro responde: “Tu és o Cristo”.

Contudo, Marcos mostra que reconhecer Jesus como Messias não é suficiente. Os discípulos ainda não compreendem que o Cristo deve passar pelo sofrimento. O evangelista insiste que não existe verdadeira cristologia sem a cruz. Após a profissão de fé de Pedro, Jesus anuncia repetidamente sua Paixão, enquanto os discípulos permanecem incapazes de entender plenamente o caminho do Mestre.

Nesse contexto, o discipulado torna-se um processo de transformação interior. Jesus chama os discípulos não apenas para ouvir ensinamentos, mas para viver em profunda comunhão com Ele. Por isso, Marcos frequentemente apresenta os discípulos “na casa” com Jesus, em contraste com a sinagoga. A casa simboliza o espaço privilegiado da intimidade, onde Cristo explica tudo “em particular” aos seus discípulos (Mc 4,34).

Aos poucos, Jesus conduz os discípulos a uma nova lógica: a lógica do Reino de Deus. Os milagres, os ensinamentos e os confrontos com o mal exigem uma mudança de mentalidade. Quem vê os sinais e escuta a Palavra é chamado a converter-se profundamente.

Essa transformação espiritual aparece simbolicamente nas curas narradas por Marcos. O evangelista coloca estrategicamente as curas de cegos antes e depois da profissão de fé de Pedro, indicando a necessidade de abrir os olhos para compreender a verdadeira identidade de Cristo. Da mesma forma, as curas do surdo e do homem possuído por um espírito surdo e mudo revelam que o seguimento de Jesus exige uma abertura interior que começa pela escuta.

O episódio do Effatha (“Abre-te!”) torna-se, então, uma chave de leitura para todo o Evangelho. Cristo não cura apenas os sentidos físicos, mas abre o homem inteiro para Deus. Somente quem é interiormente aberto pela Palavra consegue reconhecer verdadeiramente o Filho de Deus e segui-lo no caminho da cruz.

No fundo, Marcos apresenta o discipulado como um contínuo caminho de escuta. O cristão é semelhante às ovelhas que seguem o Bom Pastor porque conhecem sua voz (Jo 10,3-4). Mesmo sem vê-lo fisicamente, aprende a caminhar guiado pela Palavra.

Assim, o Evangelho de Marcos convida cada leitor a deixar-se abrir por Cristo. Escutar sua voz significa entrar em uma relação viva com Deus, permitir que os olhos sejam iluminados e aceitar o caminho do seguimento, mesmo quando este passa pela cruz. O verdadeiro discípulo é aquele que, tendo ouvido a Palavra, passa a contemplar a realidade com novos olhos e a testemunhar aquilo que viu e ouviu do Verbo da Vida.

Irmã Geovanna Moura, 

Salesiana dos Sagrados Corações

O sopro de Deus e a vocação do homem à comunhão

Os primeiros capítulos do Gênesis apresentam o ser humano segundo o desígnio original de Deus. A narrativa bíblica mostra o homem inserido em uma tríplice relação: com Deus, com o mundo e com o próximo. Contudo, a relação com Deus ocupa lugar central, pois é nela que a pessoa humana encontra o fundamento mais profundo de sua existência.

A antropologia bíblica compreende o homem como um ser essencialmente aberto e relacional. Diferentemente de uma visão individualista e autossuficiente, a Sagrada Escritura apresenta a pessoa humana como um “eu voltado para fora”, chamado continuamente à relação e à comunhão. O homem não existe fechado em si mesmo; sua própria identidade aponta para o encontro com o outro e, sobretudo, com Deus.

Essa dimensão aparece de maneira particularmente profunda no segundo relato da criação (Gn 2). Enquanto o primeiro relato possui um caráter mais amplo e cosmológico, o segundo descreve de forma íntima o modo como Deus cria o homem. O ser humano torna-se um ser vivente quando Deus insufla em suas narinas o “נִשְׁׂמַּ֣ת /neshamah/sopro” da vida (Gn 2,7). A vida humana nasce, portanto, de uma proximidade singular com o Criador.

Segundo a reflexão de Gianfranco Ravasi, esse “sopro” manifesta a capacidade humana de entrar em relação com o infinito e com o transcendente. Entre Deus e o homem existe um vínculo profundo, simbolizado pelo mesmo sopro. O homem possui uma abertura interior que o torna capaz de escutar, acolher e responder a Deus.

No Evangelho de Marcos, essa relação aparece de forma intensa através dos termos “coração” e “vida”. O coração representa o centro da pessoa humana: é nele que o homem acolhe ou rejeita o Evangelho. A fé não nasce apenas de uma compreensão intelectual, mas de uma abertura interior capaz de reconhecer a voz de Deus.

Por isso, o Evangelho de Marcos apresenta uma perspectiva singular. Diferentemente de outras tradições centradas na Lei mosaica, Marcos estrutura sua narrativa colocando Jesus Cristo no centro da relação entre Deus e o homem. A ausência significativa do termo “lei” evidencia que o verdadeiro caminho do discípulo não consiste apenas na observância exterior, mas na escuta da pessoa de Cristo.

Essa centralidade aparece claramente na Transfiguração, quando a voz divina proclama: “Este é o meu Filho amado; ouvi-o!” (Mc 9,7). O mandamento fundamental já não aponta apenas para a Lei, mas para o próprio Jesus. A escuta torna-se, assim, o caminho privilegiado da comunhão com Deus.

Também a Parábola do Semeador ocupa lugar fundamental nessa perspectiva. Considerada por diversos estudiosos como um verdadeiro “tratado sobre a escuta”, ela revela que a Palavra de Deus exige um coração disposto a acolher. O fruto depende da abertura interior daquele que escuta.

Nesse sentido, a escuta ultrapassa a simples comunicação. Escutar alguém significa reconhecer sua existência e acolher sua presença. Como afirma o Padre Luigi Maria Epicoco: “Quando tu escutas alguém, tu estás dizendo ao outro: ‘Tu existes’”.

Quando essa dinâmica é aplicada à relação com Deus, sua profundidade torna-se ainda maior. Escutar Deus não significa apenas admitir sua existência, mas reconhecer sua presença viva e absoluta. A escuta abre o coração humano para a fé e conduz progressivamente ao reconhecimento da identidade de Cristo.

No Evangelho de Marcos, esse caminho atinge momentos decisivos na profissão de fé de Pedro: “Tu és o Cristo” (Mc 8,29), e culmina aos pés da cruz, quando o centurião proclama: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). A fé nasce de um processo de escuta, abertura interior e encontro com a revelação divina.

Ao estruturar sua narrativa, Marcos segue a mesma lógica presente no Antigo Testamento. Assim como Deus se revela a Israel dizendo “Eu sou aquele que é” (Ex 3,14) e propõe uma aliança fundamentada na escuta do “Shemá – Ouve, ó Israel”, o evangelista apresenta desde o primeiro versículo a identidade de Jesus como “Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1).

Desse modo, a escuta torna-se o fundamento da relação entre o homem e Deus. Não se trata apenas de ouvir palavras, mas de abrir-se interiormente à voz divina que chama, transforma e conduz à comunhão. O homem criado pelo sopro de Deus encontra sua plenitude precisamente quando volta a escutar a voz daquele que lhe deu a vida.

Irmã Geovanna Moura, 

Salesiana dos Sagrados Corações

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