O desenvolvimento da pedagogia do amor na vida de São Filippo Smaldone
As relações humanas são fundamentais para o crescimento e o desenvolvimento do ser humano e devem ser pautadas no amor, pois o homem foi criado não para estar só, mas em unidade e comunhão com o outro e, sobretudo, com o seu Criador. O meio social é imprescindível para essas transformações, pois é nesse meio, nessa troca de experiências — que são essenciais para o homem — que ocorre o aprendizado, a troca de ideias, a formação de valores, além de ser fonte de apoio emocional, espiritual e motivacional.
É nesse contexto que São Filippo Smaldone vivencia, em sua vida e história, a Pedagogia do Amor. Ela molda, primeiramente, a família Smaldone, na qual seus pais, Antônio Smaldone e Maria Concetta De Lucca, nutriam no coração de seus sete filhos, desde os primeiros anos, o amor a Deus e aos irmãos, solidificando os princípios cristãos.
Embora o contexto sociopolítico — que findou com a queda do Reino das Duas Sicílias após as revoltas em Nápoles, em 1848 — tenha sido bastante conturbado, não interferiu diretamente na vida de Filippo. O fator eclesial, por sua vez, foi muito mais destacado e influente em sua vida, impactando em sua formação espiritual, humana e educacional. Ademais, foi nesse viés que São Filippo “foi amadurecendo cada vez mais a ideia, e sobretudo a vivência e experiência com a Pedagogia do Amor, refletida primeiramente na vida dele mesmo e com todos aqueles que ele conhecia” (p. 182).
São Filippo “tinha o caráter vivo, atencioso, prudente e um comportamento gentil e sério, virtudes essas que foram delineando o seu modo de ensinar e cuidar dos surdos” (p. 182). O amor a Deus foi a maior aspiração de sua vida e conduta, possibilitando-lhe grandeza de coração e abertura ao outro — o Effatá (Mc 7,34), palavra grega que significa “Abre-te!”.
“Filippo, por meio da linguagem do coração, alcança o silêncio existente no coração do surdo, pois a sua deficiência, considerada como exclusão na vida social, impossibilitava-o de crescer de forma integral, de não ser digno aos olhos de ninguém, sendo considerado ‘infeliz’, como era definido e caracterizado na época. Smaldone aplicou e desenvolveu cada vez mais a Pedagogia do Amor como uma nova janela de esperança para esses surdos, que eram então vistos como impossibilitados de tudo, até mesmo de se salvar, pois, como não conseguiam escutar, consequentemente não poderiam falar ‘normalmente’, impossibilitando o conhecimento da verdade e de Deus.” (p. 182)
Foi observando o silêncio do Estado, a pobreza do centro-sul da Itália e as condições de abandono dos surdos que Filippo Smaldone amadureceu, em sua consciência pedagógica e amorosa, a convicção da necessidade de programar organicamente a atividade didática para atender aos alunos surdos (SOFIATO; CONCEIÇÃO FILHO, 2023) (p. 183). Estes necessitavam de mulheres que se consagrassem à evangelização e à educação dos surdos, pois, pela inclinação natural, o coração de mãe, a paciência infinita e a maior sensibilidade às dificuldades dos surdos estariam mais bem preparadas para cuidar deles. Assim, nasceu na cidade de Lecce, em 1885, a Congregação das Irmãs Salesianas dos Sagrados Corações e o primeiro Instituto para Surdos em Lecce.
O cuidado e a atenção com o outro, e principalmente com os mais necessitados, possibilitaram também o desejo e o anseio de ajudar meninas com deficiência visual, cujo número, em sua época, vinha crescendo consideravelmente. Abandonadas à própria sorte e sem instrução, decidiu também acolhê-las, fazendo tudo o que estava ao seu alcance para dar toda a assistência necessária, enviando irmãs para uma escola especializada em Florença para ajudá-las. No entanto, São Filippo não pôde continuar devido à insuficiência de recursos, sendo isso muito doloroso para ele.
Smaldone, para desenvolver sua atividade com os alunos surdos, empenhou-se em conhecer os meios e métodos válidos para a educação deles, dando início ao que se pode chamar de Pedagogia do Amor, que continua, hoje, por meio do trabalho da congregação religiosa por ele fundada.
Outrossim, uma das características que o distinguiram e deram um significado considerável ao seu trabalho e missão com os surdos foi a diligência e o empenho para desempenhar sua tarefa de gerir os institutos — uma tarefa que foi longa, precisa, imediata, específica e muito atual para o seu tempo.
O amor e a dedicação de Smaldone aos surdos lhe renderam muitos reconhecimentos e agradecimentos por parte daqueles que o conheceram e conviveram com ele. No dia 4 de junho de 1923, a irmã Bibiana Testi, Salesiana dos Sagrados Corações, testemunhou que, quando os surdos souberam de sua morte, eles mesmos quiseram acomodá-lo no caixão e levá-lo, dizendo que jamais poderiam esquecer um pai (CANONIZATIONIS, 1989, p. 345).
A finalidade do ensino aos surdos era abri-los ao amor a Deus, torná-los aptos à comunicação com os outros e, ao mesmo tempo, prepará-los para o exercício de uma atividade que os inserisse na sociedade, garantindo-lhes um modo de sobrevivência, já que os surdos eram vistos como pessoas excluídas, abandonadas, “infelizes” e deixadas à própria sorte.
Irmã Lara Pereira,
Salesiana dos Sagrados Corações