Filoteia – A alma que busca a Deus
Quem é Filoteia?
Filoteia significa a alma que ama a Deus, que busca a Deus constantemente ou pelo menos tenta achar esse misterioso Deus em tudo, embora ela, a alma, não faça tantos acertos e progressos na vida espiritual, mas o se por a caminho já é um desejo que ela tem de encontrá-Lo.
Deus brinca conosco de se esconder e de se revelar, como uma criança às vezes faz, para que possamos crescer na fé e no amor, para não nos alimentarmos sempre com comidas de crianças, mas que possamos vê-lo com os olhos e os ouvidos da fé, de maneira mais sólida, concreta, no simples do cotidiano dos nossos afazeres, pois é lá que Ele vai estar, basta estar em oração e atento (a)!
Os textos que surgirão a partir dessa primeira explicação têm como base e inspiração o livro Imitação de Cristo – Com orações e reflexões de São Francisco de Sales. Após algumas leituras senti o desejo de partilhar essa voz que me fala, que nos fala ao coração, no cotidiano, aqui eu repito, de diferentes formas, mas até perceber, a alma tem que percorrer um caminho com Ele de amizade, esforçar-se para combater as contrariedades da carne que frequentemente resiste, sendo cega e surda.
No início, muitas vezes é cansativo, a pessoa continuamente se sente desinteressada, mas é assim que a amizade vai surgindo, à medida que conhecemos, vamos nos afeiçoando, identificando-se. Como já dizia santa Teresa D’Avila, “é justo que muito custe, o que muito vale”. E é assim que acontece com o nosso Senhor, que nos esforcemos para estar com o nosso coração inteiro, os pensamentos, os sentidos com Ele e n’Ele.
Em um relacionamento entre um jovem casal, por exemplo, quando se conhecem existe um ardente e forte desejo de um conhecer o outro, saber os gostos, as músicas, a cor preferida, a comida, o jeito dele (a), o falar, o comportar-se, tudo! Não é verdade? Da mesma forma é com Deus, só que o anseio e a vontade na maior parte das vezes vem d’Ele e não nossa. É Ele que quer conversar, é Ele quem quer me amar, te amar, é Ele quem quer entrar em intimidade e somos nós que fugimos desse relacionamento.
Não fique triste por isso, porque Ele sabe da nossa condição humana, sabe que eu e você somos pecadores, o que Ele deseja é que apenas nós reconheçamos nossas fragilidades e misérias e corramos aos seus braços, pois Ele é misericórdia, é perdão, é compaixão, como se diz em um salmo. Desejo e rezo para que você abra seu coração como São Paulo dizia para a comunidade de Efésios para que eles crescessem na largura e no comprimento, e na altura e na profundidade do amor a Jesus Cristo!
Effatha: abre-te!
Um olhar sobre o terço
Filoteia, Deus não escolhe hora, nem momento para falar, Ele simplesmente fala ao coração, à mente ou a qualquer pessoa ou coisa que ele desejar, todavia somos acostumados a perceber a Sua voz. É um exercício que pede amor, paciência e disposição interior.
Na manhã de uma quinta-feira, rezando e olhando para o meu terço e os seus nozinhos – aqueles que prendem um mistério do terço ao outro – refletia, quantas vezes em minha vida vou criando um, dois, três, vários nós sem perceber; nós que vão me tornando cativo de situações, escravo de pessoas e tantas outras coisas. Isso é muito sério, você não acha? Porque somos criados para sermos livres e fecundos e não mais presos, pois Cristo pagou pelos nossos pecados.
A capacidade para se perceber, se perguntar é fundamental para conhecer mais a nós e a Deus. Ele me mostra o caminho, mas me deixa livre para permanecer sentado na condição que eu esteja ou para tomar outra atitude. Com a ajuda do Espírito Santo e de Maria, o Senhor me ajude e te ajude, Filoteia, a desatar os nós que vão aparecendo em nossa história, porém é necessário docilidade e paciência conosco.
Assim como as crianças são ensinadas bem de perto nos primeiros anos de vida, assim também o Senhor quer, a todo instante, gerar em mim e em ti vida nova no amor. Em um trecho de um livro diz assim, e com isso finalizo minha partilha contigo, minha cara alma: “O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores.”
Último olhar
Como você vai? Gostaria de falar contigo sobre o olhar. Você já parou para pensar, Filoteia, sobre os inúmeros olhares que recebemos ao longo do dia? São muitos.
Mas eu não parava e refletia sobre o poder deles. Então, participando de um encontro vocacional há algum tempo, falavam-me sobre a agora santa Maria Madalena, Ela conhece muito bem sobre essa dinâmica porque em toda a vida foi marcada por eles.
Primeiro o olhar dos outros; segundo, o olhar dela; e, terceiro, o olhar de Jesus. Três tipos de olhares. Imagina como ela devia se sentir, Filoteia. Tenho certeza que você e eu em algum momento deixamo-nos influenciar por eles – algumas vezes mais, outras menos. À medida que amadurecemos na caminhada espiritual e humana, percebemos o que mais deve importar e prevalecer entre esses olhares.
Durante minhas orações à noite, quase indo dormir, o Senhor me recordava dessa mensagem nesse encontro. E percebendo Ele falar isso ao meu coração, fiz meu exame de consciência do que ocorreu no meu dia. Isso é forte, foi forte para mim, porque ao longo do dia perdemos o olhar que deve permanecer, que é o d’Ele. Gosto muito, Filoteia, de contemplar o rosto da Sagrada Face de Jesus, de me deixar olhar. Às vezes me sentia constrangido porque o olhar d’Ele é forte. Penetrante. Queria que você fizesse essa mesma experiência que estou fazendo.
Abertura de coração
Filoteia, abro o meu coração ainda mais a ti, pois assim também desejo fazer com Nosso Senhor. Desejo ardentemente trilhar um caminho de perfeição – não se assuste, mas entenda aqui como um caminho de luta e esforço para ser digno do amor de Jesus. De verdade, como Natanael (Jo 1, 45-51). Claro que há dias nada fáceis.
Porém, logo o Senhor me constrange com o Seu amor em alguma situação ou por meio de alguma pessoa. O que muito me ajuda são as leituras espirituais, a Eucaristia, a meditação da Palavra, a confissão, a reza do santo terço, sem esquecer a direção espiritual. Tendo ouvido da parte de Deus o quanto devo aprender a crescer nesse caminho, cada vez mais vejo minhas fragilidades nas simples atividades de meu cotidiano. Penso às vezes o quanto estou longe do que Ele me chama.
Venho me observando com frequência, examinando meus sentimentos e os desejos que insistem em rondar meu coração, mostrando-me ao mesmo tempo o quanto sou pobre e miserável, e o quanto preciso de Sua graça e misericórdia. Abro o meu coração a Ti para que rezes por mim, pobre alma que deseja a todo custo e com muito esforço assumir minhas misérias para que Ele faça tudo em mim.
Já no final da oração das vésperas (Liturgia das Horas), vinha ao meu coração a lembrança do mar e o movimento das ondas. O que eu entendia da parte de Deus é que esse bater das ondas na areia ou nas pedras é a insistência da vinda do Reino do Céu em meu coração. Muitas vezes, confesso, não deixo entrar, impeço essa vinda. Recordo o Salmo 112,7-7: “…levanta da poeira o indigente. e do lixo ele retira o pobrezinho para fazê-lo assentar-se com os nobres do seu povo”. Isso é desejo de Deus para todos: tornar o coração do homem sacro, nobre e digno para contemplar e entrar na eternidade junto com Ele.
A insistência do Amor. A insistência do querer o bem.
Recomeçar da cruz
Recomeça, Filoteia! De novo, de novo e de novo! Quando se fala em recomeçar me recordo das imagens que encontramos na internet com o nome “start” que quer dizer “início”, mas digo como ponto de partida a CRUZ. De lançar o olhar sobre ela, de deixar ou oferecer o coração sobre ela e dizer “ajuda-me, Senhor, porque estou saindo dos trilhos do Reino do Céu!”
Quando passamos o pano no chão podemos fazer de diferentes maneiras, por exemplo, passar o pano e deixando a marca dos pés (recomeçar de um modo não muito disposto), passar o pano sem deixar marca nenhuma (recomeçar de modo decidido), passar o pano de cima para baixo (recomeçar seguindo um caminho orientado por outro), existem formas e formas.
Quantas vezes faço tarefas e ações de uma só maneira, porque acho que essa é a melhor via, porém quando olho sob a luz do Espírito Santo, estou muitas e muitas vezes batendo o carro em outro, como naqueles brinquedos de parque, sabe? O recomeçar na cruz não é como no desenho da corrida maluca – no sentido de competir – mas correr, ter pressa para amar mais e melhor a Deus, reconhecendo primeiramente minhas fragilidades.
É caminhar, buscar a perfeição diariamente, é querer agradar somente a Ele. É cair e levantar sempre com o olhar fito n’Ele, porque se não tivermos, paralisamos e o nosso coração esfria, nada mais faz sentido e logo O abandonamos e O traímos por qualquer coisa, por isso, Filoteia (você) em 3, 2, 1… Avance com Ele a caminho da Jerusalém celeste, a tão sonhada e desejada por Jesus, a mim e a ti.
Reza comigo: ensina-me Senhor a abraçar esse caminho com tudo que ele traz e comporta, porque só assim serei inteiro no Teu amor, Tu sabes a pobreza do meu coração, as minhas fragilidades, vem em meu socorro para que eu possa recomeçar, tendo como início e fim a Tua Santa Cruz. Amém!
Vinde, ó Deus, em meu auxílio!
Digamos sempre: Vin-de, ó De-us, em meu au-xí-lio! (Pausadamente). Como São Paulo diz em uma das suas cartas sobre a necessidade de orar sempre, sem jamais esmurecer. A oração Filoteia dá o equilíbrio que a carne necessita, eleva o coração. Tantas situações nos fazem dizer essa jaculatória, um trabalho difícil, o querer brigar ou responder o irmão(ã), ter pensamentos que fazem pecar e ofender o outro e a Deus, a impaciência e outros exemplos, que porventura estando na Igreja podem até nos escandalizar por agirmos assim e que por muitas vezes construímos um ideal de santidade que não existe.
O padre uma vez disse em uma homilia que não podemos parar na casca, mas ir além, no mais profundo, se questionar, porque você age assim, consigo, com o outro? Ir além, sempre! Na raiz!
Clamar ao Espírito Santo para que venha ao teu, ao meu encontro. Carne e Espírito duelam todos os dias. Que o Senhor abra os olhos e os ouvidos espirituais dos nossos corações para reconhecer o quão pobre de amor eu sou… e tu és.
Onde está o teu coração?
Minha querida Filoteia, onde está o teu coração? Onde tu deixastes? Refletia esses dias após a Santa Missa a pessoa de Judas, todos os seus sentimentos e emoções antes da traição e pensava o meu coração estava quase assim, e o teu Filoteia? Tu sabes que me preocupo contigo, com o teu proceder, pensar, agir. Tu és muito cara!
Ainda durante a missa vendo o cálice do Senhor me recordava de um coração, o coração de Judas e o de Jesus. Judas era um escolhido, um amado de Deus, como nós! Quanto privilégio sentar à mesa, comer com Ele e os seus irmãos também convidados a participar de Sua paixão, morte e ressurreição!
Eu te pergunto onde ficou o coração de Judas? Digo que naquela miserável bolsa de dinheiro com apenas algumas moedas que logo deixariam de existir junto com a sua própria pessoa, porque assim como se esvai o dinheiro, esvai também a sua vida, o seu chamado, a sua história com Jesus no coração.
Tantas vocações (religiosa e matrimonial) são perdidas, sabe Filoteia, que eu e você podemos passar por isso e nem percebermos. Partilho essa experiência minha cara alma, pois pode ser a tua também!
Como já ouvir uma vez de uma grande amiga – outra alma (Filoteia) que anseia buscar a Ele – , o que eu alimento dentro de mim, o lobo (mal) ou cordeiro (bem)? Judas e Pedro fizeram suas escolhas, os caminhos deles foram totalmente diferentes.
A cada dia vejo que a vida de oração, o participar dos sacramentos me fazem enxergar melhor minha conduta com Deus e com o outro e isso vejo como graça infinita, bondade d’Ele. Assim como a porta do sacrário é aberta e fechada a cada Santa Missa pelo padre, assim também deve ser o meu e o teu coração em querer guardar, proteger a presença do Senhor contra os ladrões e não deixar que ninguém venha roubar esse tesouro.
Envolvido em faixas
Filoteia, eu esperei tanto esse natal, sentia e pedia ao Senhor que fosse diferente e foi! Meditando o Evangelho de São Lucas que fala sobre o nascimento de Jesus e a visita dos pastores me ressaltou a palavra envolver que estava escrita por três vezes. Refletia, o Menino Jesus foi envolvido por faixas através de Maria e de José. Me vinha ao coração que essas faixas, eram faixas de amor, liberdade, da escolha d’Ele que iria do Seu nascimento às faixas que O enrolaram na cruz. Essa Palavra ressoou forte! Quanto amor!
Fiquei me questionando o que significa a palavra envolver? Seria alguém que necessita de proteção, de cuidado, que tem zelo, os filhos são tratados assim, com amor filial. Não é só observar a leitura do Evangelho e ver que Ele foi envolvido por faixas, mas perceber com o coração que Ele quer e anseia me envolver por Suas faixas de amor.
Fecha teus olhos e imagina eles em Belém, na gruta em meio ao frio, mas o Amor aquecia, agora imagina você envolvida e contemplada por eles, pelo o próprio Senhor! Fiquei impactada, maravilhada com tanto amor e pedia ao Senhor que a nossa conversa não ficasse só no intelecto, mas que ficasse no meu coração gravado.
Ao abrir da porta
O que vou partilhar a ti é algo simples, mas que em meu coração causou e ainda me causa impacto. Quando uma pessoa amiga ou desconhecida abre o coração a você, ela lhe confere o que há de mais precioso, o que há de mais sacro para ela. São histórias, alegrias, aventuras, tristezas, traumas, tudo o que eu e você passamos.
Em um dia, não apenas em um dia, mas em vários, porque sempre recordo, observando o padre abrir a porta do sacrário percebi a preciosidade desse abrir e mais do que abrir a porta é Jesus abrir o próprio coração. Algo valiosíssimo que atraiu meu olhar como um imã e agora sempre fixo meu olhar para o sacrário, para Ele com mais consciência desse abrir-se a mim.
O abrir a porta é um pedido de Deus a mim, a ti para se desarmar e amá-Lo, porque Ele me dá o Seu coração e pede em função desse amor oferecer as desavenças, as decepções, as feridas e assim acolher apenas o Seu coração exposto, entregue a mim, a ti todos os dias na eucaristia. Como Ele é lindo, Filoteia! A todo instante o Senhor fala, declara e nós não percebemos. Que esse abrir da porta do coração d’Ele encontre a porta do meu e do teu coração aberta, para correr e abraçar com amor, assim como a Santa Maria Madalena.
Somos eleitos
Nossa, faz tanto tempo que não escrevo, mas esses dias Filoteia uma pergunta, não só ela me despertou que diz assim“você anseia pela ação do Senhor na sua vida?”, esse questionamento veio de um livro mariano que estou lendo com minhas irmãs neste mês de maio. Quando leram esse trecho me recordava da Palavra de Deus, que fala que as jovens anseiam serem escolhidas pelo esperado de Israel e ao mesmo tempo me vinha, “eu espero ser essa alma escolhida, essa esposa (que somos todos nós, Igreja) que espera o esposo na perfeição do amor?” Quando falo de perfeição é ir a cada dia, assumindo os desejos do esposo, de querer fazer tudo bem, de forma consciente e reta, porque o desejo inicial parte a medida que cultivo o Amor dentro de mim.
Muitas vezes não paramos para pensar em perguntas simples, sugestões que o Espírito vai nos mostrando, mas que a cada dia possamos pedir a graça de ouvir a voz de Deus ecoar em nosso dia, de poder contemplar essa Voz que transpassa a minha história com a Sua Palavra, de trazer a Palavra para a minha realidade, para qualquer lugar que eu for.
Irmã Larissa Pereira,
Salesiana dos Sagrados Corações