Toda iniciativa parte de Deus. Este é um fato que, à primeira vista, pode parecer uma afirmação genérica, mas que, na realidade, é fundamento e centro gravitacional de toda vocação. “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16). É sempre Ele quem toma a dianteira. Somente Deus, o Criador dos corações humanos, pode saciar em plenitude os desejos mais profundos do homem: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (cf. Sl 62,2).
Por isso, Jesus Cristo se fez homem, encarnando-se no seio puríssimo da Virgem Maria, para nos conduzir a essa mesma plenitude, à divinização da alma humana, agora chamada a participar da vida divina (cf. 2Pd 1,4). A vocação nasce desse movimento de amor: Deus que desce até nós para nos elevar até Ele.
Assim, cada vocação encontra em Deus a sua resposta e o seu sentido. Fomos criados para Ele e n’Ele está a nossa felicidade: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). O homem, ao perceber-se neste mundo como um ser único entre tantos semelhantes, intui que sua vida só encontra plenitude quando se descobre amado, chamado e querido por Outro — e esse Outro é o próprio Deus. A vocação não é, antes de tudo, um projeto humano, mas uma resposta a um Amor que nos precede.
Saber-se amado por Deus é o princípio da descoberta do caminho vocacional. “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Nenhum ser humano foi criado para a solidão; fomos chamados a entrar no círculo infinito do amor trinitário. A própria experiência de Adão revela essa verdade: ao ser criado, sentiu a falta de uma companheira (cf. Gn 2,18). Como poderíamos pensar em bastar-nos a nós mesmos? Temos um Pai e muitos irmãos; somos uma família reunida no Filho Unigênito pelos laços de amor do Espírito Santo.
Entretanto, esse chamado ao amor e à comunhão com Deus, que é universal, assume formas concretas na história de cada pessoa. Todos somos chamados à santidade (cf. 1Ts 4,3), mas o Espírito Santo distribui seus dons como quer (cf. 1Cor 12,11), suscitando na Igreja diversos caminhos de seguimento. Alguns são chamados a santificar-se na vida matrimonial, outros no ministério ordenado, outros ainda na consagração total a Deus. Não se trata de graus de amor, mas de modos diversos de responder ao mesmo Amor que chama.
A consagração religiosa está profundamente enraizada no coração da Igreja, pois “exprime a íntima natureza da vocação cristã e a tensão da Igreja-Esposa para a união com o único Esposo” (Vita Consecrata, n. 3). Consequentemente, o religioso não é uma figura solitária, mas a expressão viva e permanente de um mistério que aguarda a todos nós: a consumação da nossa união com Deus. Por meio dos votos de castidade, pobreza e obediência, os consagrados atraem o olhar dos fiéis “para aquele mistério do Reino de Deus que já atua na história, mas aguarda a sua plena realização nos céus” (Vita Consecrata, n. 1; cf. Mt 19,21).
A vida consagrada é, portanto, a vivência radical do nosso Batismo, a expressão concreta do “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). A felicidade do consagrado está em pertencer exclusivamente a Deus, de todo o coração, numa entrega total que antecipa, aqui na terra, a alegria das núpcias eternas.
Discernir a própria vocação é permitir que o coração escute a voz suave, mas firme, daquele que chama pelo nome (cf. Is 43,1). Não se trata de escolher apenas um estado de vida, mas de descobrir o lugar onde o Amor eterno nos quer fecundos. Quando o homem se abre a esse chamado, encontra a paz que o mundo não pode dar (cf. Jo 14,27) e experimenta que a verdadeira realização não está em possuir, mas em pertencer — não em se afirmar, mas em se entregar.
No fim, toda vocação é um convite a amar sem medida, a viver para Deus e, n’Ele, tornar-se dom para os irmãos. É nesse “sim” generoso que a alma encontra sua identidade mais profunda e sua alegria mais verdadeira. Como ensinava nosso fundador, São Filippo Smaldone, “toda a nossa perfeição consiste em duas coisas: em fazer aquilo que Deus quer que façamos e em fazê-lo da maneira que quer que seja feito”.
Irmã Marcia, SSC
Do Horeb ao Sacrário: o caminho do discernimento
Como escutar a voz de Deus dentro de nós? Esta é uma pergunta frequente entre os jovens que iniciam o caminho de discernimento vocacional. E, de fato, trata-se de uma questão decisiva. A eleição de uma vocação não depende simplesmente de gostos ou preferências particulares, mas da vontade do Senhor, que chama e escolhe quem quer (cf. Mc 3,13). Cabe a cada um olhar para dentro de si e também para a própria história, buscando os sinais que Deus ali semeou. Pois, antes mesmo que nascêssemos, o Senhor já nos conhecia e nos chamava: “Antes que te formasse no ventre materno, eu te conheci” (Jr 1,5). A vocação nasce juntamente com o dom da vida.
Na Sagrada Escritura, é possível contemplar os momentos em que o Senhor se comunica com os seus servos: patriarcas, profetas, sacerdotes e reis. Ele não é um Deus mudo, mas um Deus que fala — e muitas vezes fala eloquentemente no silêncio. O silêncio não é mera ausência de ruído, mas espaço interior, abertura, disponibilidade. Foi assim com o profeta Elias, no Monte Horeb: o Senhor não se manifestou no vento impetuoso, nem no terremoto, nem no fogo, mas no “murmúrio de uma brisa suave” (cf. 1Rs 19,11-13). É ali que Elias reconhece a presença divina.
Certamente, Deus pode falar também por meio de manifestações extraordinárias. Ele assim o fez ao conduzir o povo pelo deserto após a saída do Egito, revelando seu poder e fidelidade para afastá-los das idolatrias (cf. Ex 19,16-19). Não foi, muitas vezes, assim também conosco no início da nossa caminhada de fé? Quantas experiências marcantes nos despertaram para crer que Ele é o único Senhor! Contudo, à medida que amadurecemos espiritualmente, percebemos que tais sinais não são suficientes. Elias já havia experimentado Deus nas manifestações grandiosas; agora o Senhor o conduz a uma intimidade maior, a uma comunicação mais delicada e amorosa. Quanto mais próximos estamos de alguém, menos ruído é necessário para que haja compreensão. Assim também com Deus: quanto maior a intimidade, mais suave e profunda se torna a sua voz no silêncio do coração, nesse espaço sagrado e inviolável da consciência.
Nosso fundador, São Filippo Smaldone, recordava que “Deus visita continuamente o homem interior, sabendo que sempre o encontrará preparado para receber os Seus dons”. O silêncio é predisposição necessária para acolher essa visita. Somos chamados a assumir a mesma atitude de Elias: recolhimento reverente, paciência confiante, esperança perseverante.
Para escutar essa voz, é necessário ainda permitir que se acalmem as tempestades dos afetos desordenados, que tantas vezes dividem o coração e o prendem excessivamente às criaturas. Não se trata de lutar com impaciência contra si mesmo, mas de deixar que os ventos passem, serenamente, sob o olhar de Deus. Como ensinava São Francisco de Sales, não devemos nos inquietar diante das próprias misérias, pois a inquietação apenas aumenta o desassossego. O essencial é abandonar-se continuamente nas mãos de Deus, confiando cada vez mais n’Ele e cada vez menos em nós mesmos.
Se o silêncio interior é o lugar onde Deus fala, precisamos também de um espaço concreto onde esse silêncio seja guardado e protegido. A Igreja, como mãe e mestra, nos oferece esse lugar privilegiado: a presença eucarística. Não precisamos subir fisicamente a uma montanha como Elias, pois Jesus Cristo permanece próximo de nós, especialmente quando vivemos em estado de graça, e está substancialmente presente em tantos sacrários espalhados pelo mundo — muitas vezes solitário e esquecido.
No mistério da Eucaristia, Cristo continua a repetir: “Tenho sede” (Jo 19,28). Sede de amor, de adoração, de almas que se recordem de que Ele permanece neste augusto sacramento por puro amor. É para a Eucaristia que se voltam os nossos corações; é ali que se purifica e se esclarece todo discernimento. Como recorda a Exortação Sacramentum Caritatis, o Senhor Jesus, “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), dirige-se ao coração sedento do homem peregrino, ao coração que suspira pela fonte da vida e mendiga a Verdade (cf. n. 2).
Subamos, portanto, a esta montanha de amor que é a Eucaristia. Ali o ruído do mundo se cala, os afetos se ordenam, a vocação se ilumina e o coração encontra resposta. Quem aprende a permanecer aos pés do Sacrário descobre que Deus não grita — Ele chama suavemente. E, quando a alma finalmente silencia, percebe que aquela voz que buscava fora sempre ecoou dentro dela.
Irmã Marcia, SSC
O drama dos escolhidos e a coragem de confiar
Moisés recua, reflete e pede ao Senhor que escolha outro. “Envia quem quiseres enviar” (cf. Ex 4,13). Não estaremos vendo algo semelhante em nossas próprias vidas? Diante da grandeza dos projetos de Deus, deparamo-nos com o abismo da nossa pequenez. Paradoxalmente, desejando ser felizes, fugimos da própria felicidade, porque ela nos exige radicalidade — a radicalidade de um comprometimento que expõe nossas fragilidades, que nos convida a deixar que Deus aja através de nós.
Como ser verdadeiramente feliz sem nos comprometermos com Aquele que é a própria causa da nossa felicidade?
Existe no coração humano um desequilíbrio profundo que o atormenta e gera uma luta constante. Como recorda o Concílio Vaticano II: “De um lado, o homem experimenta, como criatura, suas múltiplas limitações; por outro, sente-se ilimitado em seus desejos e chamado a uma vida superior. […] Fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria” (Gaudium et Spes, n. 10). Tamanha é a miséria humana que, por vezes, chegamos a duvidar de que exista remédio. E desses desequilíbrios interiores nascem também os grandes desequilíbrios do mundo moderno.
Contudo, dentro de cada um de nós existe uma bússola divina que nos orienta para além daquilo que compreendemos de nós mesmos. Existe Alguém que nos conhece mais profundamente do que nós nos conhecemos. Não importa o quão insignificantes possamos parecer diante da vastidão do universo: sempre sentimos que Alguém nos olha com amor, que vela por nós, que sustenta o respiro de cada dia e acompanha a luta de cada jornada. O salmista, contemplando o céu estrelado, pergunta-se: “Que é o homem para dele Vos lembrardes?” (cf. Sl 8). E, no entanto, Deus o coroa de glória e honra.
Também o profeta Jeremias, no início de sua missão, tentou esquivar-se: “Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, porque sou ainda jovem” (Jr 1,6). Que sei eu? Que posso eu? Quem sou eu? Sem Deus, realmente nada somos e nada podemos, como disse Jesus Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Contudo, é o Senhor quem toma a dianteira daqueles que escolhe e consagra para si. O Evangelho afirma que Ele “os chamou para si” (Mc 3,13). A nossa identidade mais profunda está em pertencer a Ele.
Não existe caminho vocacional que não passe pelas dúvidas. A dúvida nos desinstala de certezas superficiais e de respostas rasas. Ela pode ser o primeiro passo de um caminho autêntico, pois antecede a decisão de crer. Somente a fé está à altura das perguntas mais profundas do coração humano.
Grande parte do medo que acomete os jovens está ligada à ansiedade do “e se”: “E se não for isso? E se não der certo? E se eu desistir no futuro?” Diante dessas inquietações, começamos a apresentar razões ao Senhor — como Moisés, que alegou sua dificuldade de falar (cf. Ex 4,10). Tudo para salvar a própria segurança. No entanto, não existe lugar
onde possamos nos esconder de Deus: “Se eu descer aos abismos, ali estais” (Sl 139). Mais cedo ou mais tarde, o chamado cresce e inquieta o coração.
Caberá a cada um encontrar-se com a vontade de Deus, sabendo que ela é sempre amor e verdade. A resposta aos “e se” está precisamente no abandono radical em Deus. Nosso fundador, São Filippo Smaldone, ensinava: “O abandono de si mesmo a Deus consiste em doar totalmente a Ele a própria vontade. Quando uma alma pode dizer realmente: ‘Senhor, não tenho outra vontade senão a Vossa’, está verdadeiramente entregue a Deus e a Ele unida”.
Vivemos num tempo em que “a elevada complexidade e a rápida mudança fazem com que nos encontremos num contexto de fluidez e incerteza jamais experimentado anteriormente”, como recorda o Documento do Sínodo Os jovens, a fé e o discernimento vocacional. Isso influencia a tomada de decisões de muitos jovens, que se perguntam sobre a durabilidade de suas escolhas. Contudo, não há razão para temer, porque o fundamento da Igreja é Cristo, que permanece “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Se o alicerce não é mutável, não há razão para temer os ventos. Estamos firmados na Rocha.
A resposta para todos os nossos medos e anseios está em um Nome — um Nome acima de todo nome (cf. Fl 2,9): o nome de Jesus. É Ele quem “oferece ao homem, pelo Espírito Santo, luz e forças que lhe permitem corresponder à sua vocação suprema” (Gaudium et Spes, n. 10).
Que a Virgem Maria, causa da nossa alegria, nos ensine a responder com coragem. E quando o medo bater à porta do coração, recordemos: não fomos chamados à mediocridade da autopreservação, mas à alegria da entrega.
Quem se abandona em Deus nunca perde — encontra-se. E encontra, finalmente, a verdadeira felicidade.
O medo não tem a última palavra… “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33).
Irmã Marcia, SSC
Estás cansado de lutar?
Como não falar de perseverança e fidelidade a Deus sem lembrar da figura de Jó? A fidelidade de Jó é provada até ao extremo, quando ele perde filhos, bens, saúde, paz interior e a compreensão dos amigos — ou seja, tudo o que, humanamente, sustentava sua vida. A sua história mostra-nos e comprova-nos que a fidelidade a Deus pode subsistir mesmo quando desaparecem as consolações, assim como aconteceu com tantos santos.
Porém, ao nos debruçarmos sobre essas reflexões, sobretudo quando também nos sentimos cansados de lutar, podemos nos questionar: até que ponto estou disposto(a) a vivenciar esse caminho de luta na fidelidade e perseverança em Deus? Onde está minha fé em tudo isso?
O Amor é o segredo da perseverança e da fidelidade na constância do caminho. A perseverança de Jó não esfria; não é isenta de lágrimas, mas é profundamente humana e próxima de cada um de nós. Ele não rompe com Deus diante das lutas, e sua fidelidade se torna heroica, pois ele permanece diante do Mistério, diante de Deus. Se olharmos por essa perspectiva, veremos quanta riqueza podemos contemplar, pois Jó não rompe nem se afasta da relação com Deus; pelo contrário, ele leva seu sofrimento e suas lutas para dentro dessa relação, para a oração.
A fidelidade está em cumprir com perseverança o dever ordinário, mesmo que, ao rezar, não se sinta nada; mesmo crendo sem entender; mesmo quando não se tem o ânimo habitual nas tarefas; mesmo estando diante de Deus com o coração confuso ou ferido. Ademais, é nisso que se encontra a graça de vivenciar o caminho ordinário e concreto da perseverança e da fidelidade em meio aos campos de batalha de cada pessoa.
O itinerário de Cristo na perseverança, fidelidade e fé consiste em não recuar, não desistir diante da queda, mas, principalmente, na decisão voluntária de permanecer, apesar do peso lacerante da Cruz, diante do seu sofrimento e do nosso pecado. Ao cair com a Cruz, Ele sustenta toda a sua luta e força no encontro com o olhar firme e materno de sua Mãe e na fidelidade ao Pai. O olhar da fé deve entrar nessa relação de comunhão mais profunda com a Virgem Maria e com o Pai, tornando-se, assim, uma relação mais íntima, mais livre e mais madura.
Assim, a história de Jó, bem como a de cada um de nós, faz-nos enxergar que a fé verdadeira é provada por meio da purificação nas adversidades cotidianas, e não no consolo dos momentos de Graça. O apelo à perseverança requer uma entrega diária que aceite o Mistério do sofrimento como via de purificação e aproximação com Deus. Ao olharmos para onde está a nossa fé, possamos encontrá-la na firmeza de quem, mesmo perdendo tudo, escolhe permanecer em Deus e com Deus. E, se hoje estamos cansados de lutar, que essa mesma fé nos sustente e nos faça permanecer Nele. Com isso, nossa história se assemelhará à vida de tantos santos, como um testemunho vivo de confiança inabalável.
Irmã Lara, SSC
Castidade: o amor que se entrega inteiramente a Deus
A castidade cristã encontra seu fundamento mais profundo no amor a Deus. Não se trata simplesmente de uma renúncia exterior ou de uma disciplina moral isolada, mas de uma orientação interior do coração que, purificado de afetos desordenados, busca elevar-se inteiramente a Deus. Nesse sentido, a castidade do coração e do corpo consiste na renúncia dos afetos ilícitos por amor ao Senhor, permitindo que a vida interior não se disperse em desejos desordenados, mas se eleve continuamente em direção a Deus, como uma chama viva, cada vez mais pura e ardente. Assim, a castidade exterior encontra sua verdadeira raiz na castidade do coração, que é a mais profunda e preciosa, pois é nela que se decide a direção última do amor humano.
Para viver essa virtude, torna-se necessária uma constante vigilância espiritual e um caminho de mortificação que envolva tanto o corpo quanto o coração. De um lado, exige-se o domínio dos sentidos, especialmente diante das ocasiões de perigo; de outro, requer-se a purificação dos afetos interiores, evitando que o coração se prenda a inclinações desordenadas que possam enfraquecer a vida espiritual. Essa pedagogia da liberdade, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, implica um esforço contínuo de domínio de si, sustentado pela graça divina, que conduz a pessoa à unidade interior perdida pela dispersão do pecado (CEC, n. 2340-2342). A castidade, portanto, não é apenas abstinência, mas um caminho de integração da pessoa, no qual o domínio de si abre espaço para o verdadeiro dom de si.
Vivida dessa maneira, a castidade manifesta-se como um amor indiviso. São Paulo recorda que aquele que se consagra ao Senhor busca agradar a Deus com todo o seu coração (cf. 1Cor 7,32-34). No seguimento de Cristo, essa entrega total expressa-se como um amor que não se divide entre múltiplos interesses, mas se orienta plenamente para Deus e para sua missão; Como ensina São Filippo Smaldone, “a castidade é um presente de Deus que nos faz disponíveis para com as coisas do Senhor e principalmente livres para amá-Lo e servi-Lo nos irmãos”. Por isso, especialmente na vida consagrada, a castidade se torna sinal visível de que Deus é suficiente para o coração humano e de que o amor por Ele pode ocupar o centro da existência. Esse amor indiviso encontra em Cristo o seu modelo supremo, pois Ele amou com coração totalmente entregue ao Pai e à missão recebida, oferecendo a própria vida pela salvação da humanidade (cf. Jo 15,12-13).
Ao mesmo tempo, a castidade revela uma profunda fecundidade espiritual. Longe de empobrecer a capacidade de amar, ela a amplia e purifica, tornando o coração mais livre para uma caridade universal. A tradição espiritual ensina que a pureza de vida conduz a alma a uma participação mais intensa na vida de Deus. De fato, quando vivida em sua plenitude, a castidade faz o homem viver, mesmo na carne mortal, uma vida já orientada para a eternidade. Nesse sentido, afirma-se que, se a castidade perfeita torna o corpo semelhante à alma, ainda mais verdadeiramente torna a alma semelhante a Deus, tornando-a mais forte, mais luminosa e mais capaz de amar.
Essa transformação interior abre também o caminho para uma experiência mais profunda da presença de Deus. A pureza de coração dispõe a alma para a contemplação e para o reconhecimento da ação da Providência nas circunstâncias da vida. Cumpre-se, assim, a promessa do Evangelho: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). A alma purificada aprende a reconhecer Deus na oração, na liturgia, especialmente no santo sacrifício da Missa, e também nas pessoas que a cercam, descobrindo nelas a presença silenciosa da graça.
Desse modo, a castidade vivida por causa do Reino dos Céus manifesta-se como um caminho de configuração a Cristo. Ela educa o coração para um amor mais puro, fortalece a liberdade interior e torna a pessoa testemunha da fidelidade e da ternura de Deus. Amor indiviso e fecundo, a castidade revela que a entrega total a Deus não diminui a capacidade de amar, mas a dilata, tornando-a fonte de vida espiritual para muitos e sinal antecipado da comunhão eterna com Deus.
Irmã Cássia, SSC
Diversas vocações, uma só motivação
“A vocação é o pensamento amoroso de Deus sobre cada pessoa.” (São João Paulo II) Toda vocação se dá, primeiro, por um chamado amoroso de Deus, e a concretude da vocação é uma resposta generosa da pessoa que recebe esse chamado. Cada alma é chamada a uma vocação específica e, para abraçar na totalidade uma vocação, é preciso tomar conhecimento do que é, como surge, quais caminhos é preciso tomar e quais atitudes realizar.
A vocação é uma forma de viver o chamado de Deus, e existem diferentes formas de vida que estão ligadas por uma mesma razão: responder ao Amor, ou seja, responder a Cristo. A primeira vocação, também chamada de “vocação universal”, à qual todo cristão é chamado, é a vocação à santidade. Vocação esta que possui caminhos diferentes para alcançá-la e que varia de acordo com o chamado específico de cada um.
São quatro formas principais de vida vocacional: a vocação matrimonial, onde há a santificação mútua do casal e a educação cristã dos filhos; a vocação sacerdotal, em que homens doam a própria vida para a Igreja, servindo o povo de Deus; também há a vocação religiosa consagrada, na qual homens e mulheres professam os votos evangélicos e vivem em comunidade, seguindo os passos de Jesus; e a quarta forma de vida vocacional, que é a vocação leiga consagrada, na qual homens e mulheres desejam consagrar-se totalmente a Deus, mas permanecem em sua vida profissional, sem professar os votos de pobreza, castidade e obediência.
Diversas vocações, interligadas pela mesma razão: Jesus Cristo. Esta é uma das belezas da Igreja, onde cada alma, movida pelo amor a Cristo, assume um seguimento específico com verdadeira doação de vida.
E, para decidir pela vocação à qual Cristo nos chama, relembramos uma máxima de São Filippo Smaldone: “O abandono de si mesmo a Deus consiste em doar totalmente a Ele a própria vontade.”
Irmã Natália, SSC
A alegria de pertencer totalmente a Deus
A vocação é, antes de tudo, um dom gratuito do amor de Deus. Ele, que nos chama à existência, também nos conduz pacientemente ao fim para o qual fomos criados: a SANTIDADE.
Assim, a vocação não é apenas uma escolha humana, mas uma resposta a um chamado divino. Para vivermos essa santidade em íntima união com Cristo, é necessário discernir o caminho concreto pelo qual Deus nos conduz: o Matrimônio, o Sacerdócio ou a Vida Consagrada.
Entre essas formas de vida, a Vida Consagrada manifesta de modo particular a beleza de pertencer totalmente a Deus. Nela, a alma entrega sua liberdade por amor, unindo a própria vontade à vontade divina, vivendo na radicalidade dos conselhos evangélicos: pobreza, castidade e obediência. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, trata-se de uma antecipação do Reino dos Céus, um sinal visível de que Deus basta. Santa Teresa de Ávila dizia: “Só Deus basta.” Nesta verdade encontra-se a fonte da alegria profunda de quem tudo deixou para possuir o Tudo.
Toda vocação nasce de um encontro. Não de uma ideia, mas de uma Pessoa: Jesus Cristo. É Ele quem toma a iniciativa, fixa o seu olhar de amor e chama. Como no Evangelho:
“… subiu ao monte e chamou os que Ele quis, e eles foram até Ele” (Mc 3,13).
Este olhar transforma o coração e dá um sentido novo à existência. Assim como dois jovens que se descobrem no amor, a alma chamada por Deus experimenta um encontro que a atrai, a fascina e a conduz a uma entrega total.
Minha vocação nasceu de um anseio profundo que eu sentia desde criança, mesmo antes de conhecer a Igreja. Aos 11 anos, ainda sem ser batizada, comecei a catequese e sempre quando ouvia falar de Jesus, de Maria e, especialmente, da Eucaristia, senti meu coração arder. É então que começa a desperta em mim aquele desejo de gastar a vida por amor a Cristo e pela salvação das almas. Eu me encontrei com este olhar de Jesus na Santa Missa e tudo em minha vida mudou.
O Senhor continua a chamar. Seu olhar repousa sobre cada pessoa com amor eterno. Cada vocação é um dom precioso que deve ser acolhido com fidelidade, cultivado na oração e confirmado no discernimento.
Por isso, a Igreja insiste na importância da direção espiritual, da escuta da Palavra e de uma vida sacramental constante. É o Espírito Santo quem ilumina o caminho e dá a graça necessária para responder com generosidade.
Santo Afonso Maria de Ligório ensina: “Quem reza, se salva; quem não reza, se condena.” A oração é, portanto, o lugar onde a vocação se esclarece e se fortalece. Se você já encontrou sua vocação, permaneça firme. As dificuldades fazem parte do caminho, mas não podem apagar a certeza do chamado. Não permita que as dúvidas ou as mentiras roubem a paz do seu coração. Se ainda não encontrou, não tenha medo. Deus revela sua vontade no tempo certo. O essencial é permanecer disponível, buscando-O com sinceridade.
A resposta à vocação exige fé e abandono. Pertencer totalmente a Deus não significa perder, mas encontrar o verdadeiro sentido da vida. Como escreveu Santa Teresa do Menino Jesus: “Tudo é graça.”
Na caminhada vocacional, a confiança em Deus é o sustento da alma:
“Quando o medo me invadir, ó Deus Altíssimo,
porei em vós a minha confiança;
confio em Deus e louvarei sua promessa,
é no Senhor que eu confio e nada temo.”
(Sl 55[56])
A alegria de pertencer totalmente a Deus não é superficial nem passageira. Ela nasce da certeza de ser amado, escolhido e chamado por Ele. É uma alegria que permanece mesmo nas cruzes, porque está enraizada na vontade divina.
Responder ao chamado de Deus é entrar nessa alegria — a alegria dos santos, a alegria do Evangelho, a alegria de quem encontrou o tesouro escondido e, por ele, vendeu tudo com amor.
Irmã Vitória, SSC
Juventude: tempo de escolhas definitivas
São Filippo Smaldone, ao citar o Evangelho e São Francisco de Sales, afirma: “Sede perfeitos, como é perfeito o Pai vosso que está nos céus”, com o objetivo de nos tornar uma só coisa com Ele. Cada um de nós, diz São Francisco, com uma forte e constante resolução, doe-se todo para Deus, sem reserva alguma.
A juventude é um tempo privilegiado de escolhas decisivas. Entre elas, destaca-se a vocação, que não nasce apenas de um desejo humano, mas é, antes de tudo, um chamado de amor que vem de Deus. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, “Deus chama cada um pelo seu nome” (cf. CIC, 2158), convidando-o a uma resposta livre e generosa.
A Sagrada Escritura nos apresenta exemplos claros desse chamado. Abraão, ao ouvir a voz do Senhor — “Deixa tua terra…” (Gn 12,1) — partiu confiando plenamente em Deus, mesmo sem conhecer o caminho. Sua vida nos ensina que a vocação exige fé e abandono.
Do mesmo modo, Maria é o modelo perfeito de resposta. Diante do mistério que lhe foi proposto, respondeu com confiança: “Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1,38). Como afirma Lumen Gentium, ela cooperou de modo único na obra da salvação, tornando-se exemplo de entrega total à vontade divina.
A vocação à vida consagrada é uma forma particular de seguir Cristo mais de perto. Segundo o Código de Direito Canônico, “a vida consagrada […] é a forma estável de viver pela qual os fiéis […] se consagram totalmente a Deus” (cân. 573). Por meio da profissão dos conselhos evangélicos — pobreza, castidade e obediência —, a pessoa se torna sinal visível do Reino de Deus no mundo.
São João Paulo II, na exortação apostólica Vita Consecrata, recorda que a vida consagrada “está no coração da Igreja” e manifesta de forma luminosa o seguimento radical de Cristo. Trata-se de uma resposta de amor que transforma toda a existência.
Por isso, no caminho de discernimento vocacional, é essencial cultivar a escuta da Palavra de Deus, a vida de oração e a direção espiritual. Como ensina Santo Inácio de Loyola, é no silêncio e na abertura interior que a pessoa pode reconhecer os movimentos de Deus e responder com liberdade.
Assim, especialmente na juventude, somos convidados a não temer as grandes decisões. Confiando em Deus, que chama e sustenta, cada jovem pode descobrir o seu caminho e tornar-se, no mundo, “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14).
Irmã Jakelyne, SSC
Virgem Maria, Mãe das vocações
A vocação é um chamado que leva a alma a escutar a vontade de Deus, tomar uma decisão e dar uma resposta livre e consciente. E esse chamado passa por tempos de dúvidas e incertezas, que muitas vezes deixam a alma em crise, questionando-se sobre a vontade de Deus, sendo necessário dar continuamente uma nova resposta.
Contudo, existe um modelo de vocação que soube escutar e responder ao próprio chamado com fidelidade e determinação; esse modelo é a Virgem Maria, a Mãe das vocações.
Deus, em seu infinito amor e sabendo de nossas fraquezas, fragilidades e limitações, nos deixa Maria como verdadeiro exemplo a seguir e uma esperança em meio aos desafios. Ao olhar para a Virgem Maria e ver cada momento vivido por ela, é possível aprender a silenciar diante de tantas dúvidas ou medos que surgem no caminho vocacional. Também é possível aprender a escutar Cristo, que fala aos corações por meio de simples gestos; é possível, ainda, dar uma resposta ao chamado amoroso de Deus com fé viva e coragem no cotidiano da vida, porque Maria, desde o anúncio do anjo, colocou-se diante de Deus como serva, escutou, foi obediente e respondeu com sua própria vida, dizendo “faça-se” com suas palavras e ações, desde a encarnação de Jesus até a sua ressurreição.
Uma das regras deixadas por São Filippo às suas filhas (Irmãs Salesianas dos Sagrados Corações) é esta: “A Santa Virgem será invocada e honrada diariamente com a oração do Ângelus, do terço e de outras orações particulares.” São Filippo, tendo a certeza de que Maria é uma mãe fiel que sempre olha e socorre seus filhos, ensina a recorrer a Ela; por isso, eis a quem buscar com confiança nos tempos de incerteza, em que surgem provações ou tentações, pois quem busca auxílio em Maria não desiste.
Chamar por Maria, olhar para Maria e deixar-se formar por Maria, pois Ela pode interceder, ensinar, formar, educar, encorajar e mostrar o caminho a seguir para alcançar a união com Jesus.
Irmã Natália, SSC
Entre muitas vozes, uma direção: como discernir o verdadeiro guia espiritual, segundo São Francisco de Sales.
Quando se trata da direção espiritual, é comum associá-la imediatamente à figura do diretor. Todavia, é fundamental compreender que essa prática envolve, de modo intrínseco, três protagonistas: o diretor espiritual, enquanto instrumento dócil à ação do Espírito Santo; o dirigido, que se coloca em atitude de abertura e docilidade; e o próprio Deus, que é o verdadeiro guia do caminho (Lagrange, 2023, p. 322). É, portanto, imprescindível que ambos, diretor e dirigido, tenham clara consciência de seus respectivos papéis, de modo que seja, de fato, o Senhor quem conduza o processo de discernimento para o cumprimento da Sua santíssima vontade (Santos, 2019, p. 197).
Para que esse processo de discernimento se mantenha em sua dimensão sobrenatural, é necessário reconhecer no diretor um mediador da graça. Nesse sentido, São Francisco de Sales afirma:
De fato, esse amigo deve ser um anjo para ti, isto é, uma vez que o tenhas obtido de Deus, já não o deves considerar como um simples homem. Não deposites a tua confiança nele senão com respeito a Deus, que, por seu ministério, te quer guiar e instruir, suscitando no seu coração e nos seus lábios os sentimentos e as palavras necessárias para a tua direção. Por isso deves ouvi-lo como a um anjo que vem do céu para te dirigir (2012, p. 34).
Conforme demonstra Sales, o diretor espiritual deve possuir três virtudes essenciais: caridade, ciência e prudência. A ausência de qualquer uma delas compromete a segurança e a eficácia do acompanhamento espiritual, uma vez que o cuidado das almas exige a integração dessas disposições (2012, p. 33).
Dessa maneira, o santo bispo de Genebra compara a caridade à rainha das abelhas: assim como a abelha centraliza e organiza o trabalho do enxame, a caridade deve ser a virtude central do coração, orientando e dando vida às demais virtudes, regulando seu agir segundo o devido lugar e momento (Sales, 2012, p. 147). Nesse sentido, as virtudes da ciência e da prudência complementam a caridade: a ciência permite ao diretor compreender adequadamente a vida interior do dirigido e os meios mais adequados para seu crescimento, enquanto a prudência garante que cada orientação seja dada no tempo certo e de forma apropriada, respeitando o ritmo e a liberdade do discípulo (Santos, 2019, p. 198). Assim, a integração dessas três virtudes é fundamental para um acompanhamento espiritual seguro, eficaz e verdadeiramente formativo.
Segundo o ensinamento do Doutor da Perfeição, o diretor espiritual deve distinguir-se não apenas por uma ciência sólida, mas sobretudo por uma sabedoria autêntica, que se manifesta em diversos níveis: como dom sobrenatural do Espírito Santo, que lhe confere luz interior para julgar segundo Deus; como sabedoria teológica, fundada no conhecimento da Sagrada Escritura, da Tradição e da doutrina da Igreja; como sabedoria prática, capaz de aplicar esses princípios às situações concretas da vida espiritual; e como sabedoria experiencial, fruto da vivência pessoal da graça e da caridade. Só assim poderá oferecer luz e discernimento em tudo o que for necessário no acompanhamento das almas (Sales, 2012, p. 34).
À luz do ensinamento de São Francisco de Sales, o diretor espiritual deve distinguir-se por uma ciência sólida e uma sabedoria profunda, de modo a oferecer luz e discernimento em tudo quanto se fizer necessário no acompanhamento espiritual (2012, p. 34). Desse modo, ele declara:
Ele [o diretor] será para nós um tesouro de sabedoria para evitar o mal e praticar o bem de uma maneira mais perfeita; ele nos dará conforto para aliviar-nos em nossas quedas e nos dará o remédio mais necessário para a cura perfeita de nossas enfermidades espirituais (Ibidem).
Assim, o direcionamento espiritual torna-se verdadeiro tesouro de sabedoria e remédio eficaz para a cura e o progresso da alma. Para tanto, o diretor deve ser um homem prudente — virtude que, mais do que simples discernimento moral, exige profunda caridade e respeito pelo mistério da consciência do dirigido. A prudência do diretor manifesta-se também na discrição e no sigilo interior, pois, embora o foro interno da direção espiritual não se identifique com o sacramento da confissão, requer o mesmo cuidado reverente diante da consciência do outro. Essa reserva prudente protege a liberdade espiritual do dirigido e garante a confiança necessária para que ele se abra à ação da graça. (Sales, 2012, p. 33). Somente à luz da fé e movido pelo amor de Deus poderá ter reta intenção no acompanhamento, conduzindo a alma em direção a Cristo por meio de suas orientações (Ángel, 2023, p. 39).
Dessa forma, o diretor espiritual precisa, antes de tudo, trilhar um autêntico caminho de santidade, vivendo em estado de graça, a fim de conduzir as almas a Deus (Santos, 2019, p. 197). Caso contrário, corre-se o grave risco de orientá-las para si mesmo, o que constitui o maior dos perigos: desviar-se do desígnio divino e do caminho que o
Senhor traçou para cada alma, que é antes de tudo voltar o coração para o Criador e não para as criaturas (Tanquerey, 2018, p. 241).
Irmã Tácyla, SSC
Direção espiritual e discernimento: princípios de São Francisco de Sales para quem busca orientação
O diretor espiritual é chamado a compreender que o itinerário do discernimento deve manifestar autêntica franqueza evangélica e prudente firmeza ao acompanhar aqueles que lhe são confiados (Tanquerey, 2018, p. 241). A direção espiritual visa, assim, penetrar na realidade integral da pessoa, iluminando sua história concreta marcada por fragilidades, feridas e dons recebidos do Senhor (Lagrange, 2023, p. 320). Todavia, sem o auxílio eficaz da graça, comunicada pela vida sacramental e pela prática das virtudes, torna-se impossível guiar a alma na ascese cotidiana, na superação dos vícios e das debilidades humanas, e na alegria de se reconhecer filho de Deus (CEC, 736).
Assim, Sales enfatiza a relevância de ordenar os afetos:
Ora, as nossas afeições são tão preciosas, e todas devem ser empregadas em amar a Deus. É, pois, preciso ter grande cuidado em não as gastarmos em coisas inúteis; e uma falta, por leve que seja feita com afeição, é mais contrária à perfeição do que cem praticadas por inadvertência e sem afeto (2018, p. 134).
Por outro lado, a missão do diretor exige não apenas santidade, retidão de intenção e docilidade à graça, mas também a consciência do que ele não deve ser. A exortação do santo doutor mostra que o papel do diretor é precisamente ajudar o dirigido a discernir e purificar suas afeições, para que não se percam em apegos inúteis, mas sejam continuamente orientadas ao amor de Deus. Por isso, não pode assumir o papel de um mestre absoluto, como fonte primeira da verdade, mas deve reconhecer-se como instrumento do Espírito Santo (1Cor 3,7-9), único guia interior da alma (CEC, 2690). Desviar o olhar do dirigido para si próprio, em vez de conduzi-lo a Cristo, configura abuso espiritual, obscurecendo a ação da graça e comprometendo o discernimento.
Além disso, o diretor espiritual não deve substituir a consciência do dirigido, mas orientá-lo para que esta seja formada à luz do Evangelho e do ensinamento da Igreja. Como ensina o Concílio Vaticano II, “a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (GS, 16). Por isso, não lhe compete impor-se com autoritarismo, manipular afetivamente ou reduzir a direção espiritual a simples conselhos psicológicos ou sociológicos. Pelo contrário, sua missão é colaborar para que o fiel aprenda a discernir, pois “a consciência deve ser educada e o juízo moral, esclarecido” (CEC, 1783).
A direção espiritual é, antes de tudo, um itinerário sobrenatural, que requer prudência pastoral, caridade evangélica e respeito pela liberdade interior. Nesse sentido, São Francisco de Sales adverte que não é a simples formação de opiniões próprias que afasta da perfeição, mas sim o apego desordenado a elas: “é o amor do nosso próprio juízo e a estima que dele fazemos a causa de haver tão poucas pessoas perfeitas” (2018, p. 221). Tal advertência mostra como a verdadeira liberdade interior não consiste em seguir caprichos ou pareceres pessoais, mas em abrir-se humildemente à verdade de Cristo.
Como recorda Sales, é indispensável que o diretor espiritual se prepare com estudo e dedicação. Sem esse aprofundamento, não há verdadeira renúncia de si mesmo nem abandono contínuo em Deus:
Passemos agora à outra pergunta, acerca do abandono de si mesmo, e qual deve ser o exercício da alma abandonada. Há duas virtudes das quais uma é o fim da outra: despojarmo-nos para nos abandonarmos. É preciso saber que abandonar a nossa alma e deixar-nos a nós mesmos é deixar e desfazer-nos da nossa própria vontade para a dar a Deus; porém de nada nos serviria, como já disse, renunciar deixar-nos a nós mesmos se não fosse para nos unirmos perfeitamente à Majestade Divina (2018, p. 61).
Para o santo bispo de Genebra, não existe verdadeiro caminho espiritual sem o despojamento de si mesmo. O diretor é chamado a entregar-se inteiramente ao Senhor, vivendo um autêntico abandono em Deus. O santo atesta: “Oh, que felizes são as almas que se dedicam verdadeiramente e absolutamente ao serviço de Deus, pois Ele nunca as deixa estéreis nem infrutuosas!” (2018, p. 112). Assim, reconhece-se que o ministério da direção espiritual constitui também um justo e fecundo serviço a Deus pela salvação das almas.
Irmã Tácyla, SSC